terça-feira, 7 de junho de 2011

Mitologia/Vícios

Te tomo como tomo uma chícara de café. Teu gosto é doce e amargo, tomo com cuidado para não  me queimar. Assim como o café, preciso te adoçar para que fiques bonzinho. Mas se essa façanha me falta, oh, musas! Como és mal comigo!
É sempre em retribuição que me dás o que preciso. Sempre devolves aquilo que recebes de mim. Às vezes, se não tomo cuidado, me queimo com seu calor. Às vezes, o calor do corpo - aquele que me favorece! -  às vezes, o gélido calor da indiferença, do esquecimento.
Te tomo, meu café, com prazer...desgraçada que sou em meu vício.
Mesmo assim, eu te amo.
Citeréia pôs-te em mim, talvez por tê-la ofendido em algum instante. Quis, em momentos de loucura, amar-te. Hoje, amo. Mas a que penar!
Continuo a tomar-te, meu negro líquido, gozando de teu saboroso calor. Tomo-te mesmo queimando por dentro meu diafragma, aquilo que chamam alma. Sem temor de mal algum a mim, amedrontada apenas pelo mal que é ficar sem ti.


*Mas que coisas bobas escrevo. Quem há de entender essa mistura sem nexo? Quem me conhece entende esta descrição louca!

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Traduzir-se

"Uma parte de mim
É todo mundo:
Outra parte é ninguém:
Fundo sem fundo.

Uma parte de mim:
É multidão:
Outra parte estranheza
E solidão.

Uma parte de mim
Pesa, pondera:
Outra parte
Delira.

Uma parte de mim:
Almoça e janta:
Outra parte
Se espanta.

Uma parte de mim
É permanente:
Outra parte
Se sabe de repente.

Uma parte de mim
É só vertigem:
Outra parte,
Linguagem.

Traduzir uma parte
Na outra parte
-Que é uma questão
De vida ou morte-
Será arte?"

Ferreira Gullar